Remédios para hipotireoidismo: os riscos de tomar demais ou de menos

Você foi diagnosticado com hipotireoidismo e começou a tomar medicação? Ou talvez já use há anos, mas ainda tem dúvidas sobre a dosagem correta? Este é um assunto extremamente importante que afeta milhões de brasileiros e merece toda a nossa atenção.

O hipotireoidismo é uma condição em que a tireoide não produz hormônios suficientes para o bom funcionamento do organismo. O tratamento é relativamente simples: reposição hormonal com medicamentos. Mas aqui está o detalhe crucial: a dose precisa ser exata. Nem mais, nem menos.

Neste artigo, vamos conversar sobre os medicamentos usados no tratamento do hipotireoidismo, os perigos reais de tomar doses inadequadas, e por que você nunca deve ajustar a medicação por conta própria. Vou compartilhar também a história de pessoas que aprenderam isso da forma mais difícil.

O Que É Hipotireoidismo e Por Que Precisa de Tratamento?

Antes de falarmos sobre os medicamentos, é importante entender o que acontece no seu corpo quando a tireoide não funciona direito.

A tireoide é uma glândula pequena em forma de borboleta localizada no pescoço. Ela produz hormônios (principalmente T3 e T4) que regulam praticamente tudo no seu organismo: metabolismo, temperatura corporal, batimentos cardíacos, humor, memória, peso e muito mais.

Quando você tem hipotireoidismo, essa produção diminui. Os sintomas mais comuns incluem:

  • Cansaço extremo e falta de energia
  • Ganho de peso sem explicação
  • Pele seca e cabelos quebradiços
  • Sensibilidade ao frio
  • Constipação intestinal
  • Depressão e dificuldade de concentração
  • Batimentos cardíacos lentos
  • Inchaço no rosto e nas extremidades

O tratamento é essencial porque, sem os hormônios tireoidianos em quantidade adequada, todo o seu metabolismo fica comprometido.

Os Principais Medicamentos para Hipotireoidismo

Levotiroxina: O Padrão-Ouro do Tratamento

A levotiroxina sódica é o medicamento mais prescrito para tratar hipotireoidismo. Ela é uma versão sintética do hormônio T4 (tiroxina) que sua tireoide deveria estar produzindo naturalmente.

Marcas mais conhecidas no Brasil:

  • Puran T4®
  • Synthroid®
  • Euthyrox®
  • Levoid®
  • Tetroid®
  • Levotiroxina genérica (diversas fabricantes)

Todas essas marcas contêm o mesmo princípio ativo: levotiroxina sódica. A diferença está nos excipientes (substâncias inativas) usados na formulação, o que pode afetar a absorção do medicamento em algumas pessoas.

Como a Levotiroxina Funciona?

Você toma o comprimido pela manhã, em jejum. O medicamento é absorvido no intestino e vai para a corrente sanguínea, onde substitui o hormônio que sua tireoide não está produzindo. Simples assim!

Mas atenção: a absorção pode ser afetada por vários fatores, como:

  • Alimentos (especialmente os ricos em fibras, cálcio e ferro)
  • Café
  • Outros medicamentos
  • Problemas gastrointestinais

Por isso, a recomendação é sempre tomar em jejum, pelo menos 30 a 60 minutos antes do café da manhã.

A História de Ana: Quando Trocar de Marca Vira Pesadelo

Ana, 42 anos, professora, tratava hipotireoidismo há 5 anos com Puran T4® 100 mcg. Seus exames estavam sempre controlados e ela se sentia bem. Um dia, foi à farmácia e não encontrou sua marca habitual. O farmacêutico sugeriu uma marca genérica, garantindo que “era a mesma coisa”.

Ana aceitou, sem imaginar o que viria a seguir.

Nas primeiras semanas, tudo parecia normal. Mas depois de um mês, sintomas estranhos começaram a aparecer:

  • Coração acelerado, principalmente à noite
  • Tremores nas mãos
  • Nervosismo e ansiedade inexplicáveis
  • Dificuldade para dormir
  • Perda de peso, mesmo comendo normalmente
  • Suor excessivo
  • Sensação de calor o tempo todo

Ana ficou assustada. “Será que estou com outro problema de saúde?” Ela marcou consulta com sua endocrinologista, que logo desconfiou: “Você mudou de medicação?”

Os exames confirmaram: Ana estava com TSH suprimido e T4 livre elevado. Os sintomas eram de hipertireoidismo iatrogênico – ou seja, causado por excesso de medicação.

O que aconteceu?

Embora o princípio ativo fosse o mesmo, a nova marca tinha uma absorção diferente no organismo de Ana. Ela estava, na prática, tomando uma dose maior do que precisava, mesmo que o número no comprimido fosse o mesmo (100 mcg).

A médica orientou o retorno à marca original e, algumas semanas depois, Ana voltou ao normal. Essa experiência a ensinou uma lição valiosa: nunca trocar de marca sem avisar o médico.

Os Perigos de Tomar Levotiroxina em Excesso

Quando você toma mais hormônio tireoidiano do que precisa, seu corpo entra em um estado de hipertireoidismo. É como pisar fundo no acelerador do metabolismo.

Sintomas de Superdosagem

Sintomas cardiovasculares:

  • Taquicardia (coração acelerado)
  • Palpitações
  • Arritmias cardíacas
  • Aumento da pressão arterial
  • Risco aumentado de fibrilação atrial em idosos

Sintomas neurológicos e psiquiátricos:

  • Ansiedade e nervosismo
  • Insônia
  • Tremores
  • Irritabilidade
  • Dificuldade de concentração

Sintomas metabólicos:

  • Perda de peso não intencional
  • Aumento do apetite
  • Suor excessivo
  • Intolerância ao calor
  • Aumento dos movimentos intestinais (diarreia)

Sintomas musculoesqueléticos:

  • Fraqueza muscular
  • Osteoporose (em uso prolongado de doses excessivas)
  • Maior risco de fraturas

Consequências a Longo Prazo

O excesso crônico de levotiroxina não é brincadeira. Estudos mostram que doses acima do necessário por períodos prolongados podem causar:

  1. Problemas cardíacos graves: Aumento do risco de fibrilação atrial, insuficiência cardíaca e morte cardiovascular, especialmente em pessoas acima de 60 anos.
  2. Perda de massa óssea: O excesso de hormônio tireoidiano acelera a reabsorção óssea, levando à osteoporose e maior risco de fraturas, principalmente em mulheres pós-menopausa.
  3. Impacto na saúde mental: Ansiedade crônica, ataques de pânico e até sintomas psicóticos em casos extremos.

Os Perigos de Tomar Menos do Que Precisa

Por outro lado, tomar menos levotiroxina do que o necessário mantém você em estado de hipotireoidismo, com todos os sintomas desagradáveis que isso traz.

Consequências da Subdosagem

Sintomas persistentes:

  • Fadiga crônica
  • Ganho de peso
  • Depressão
  • Problemas de memória
  • Constipação

Complicações cardiovasculares:

  • Aumento do colesterol LDL (“ruim”)
  • Risco aumentado de doença cardiovascular
  • Derrame pericárdico (acúmulo de líquido ao redor do coração)

Outras complicações:

  • Mixedema (forma grave de hipotireoidismo, rara mas séria)
  • Problemas de fertilidade
  • Complicações na gravidez
  • Desenvolvimento prejudicado em crianças

Por Que Você Nunca Deve Aumentar a Dose Sozinho

Muitas pessoas cometem esse erro. Vamos entender por quê é tão perigoso.

O Caso de Roberto: A Tentação de “Acelerar o Metabolismo”

Roberto, 38 anos, comerciante, estava tomando 75 mcg de levotiroxina para tratar seu hipotireoidismo. Ele estava se sentindo bem, mas ainda tinha alguns quilos extras que gostaria de perder.

Em uma conversa na academia, um colega comentou: “Cara, se você aumentar um pouquinho a dose da sua medicação de tireoide, seu metabolismo acelera e você emagrece mais rápido.”

Roberto pensou: “Faz sentido. Vou só aumentar para 100 mcg. Que mal pode fazer?”

Nas primeiras semanas, ele realmente perdeu peso. Estava animado! Mas logo vieram os problemas:

  • Coração disparado durante os treinos
  • Tremores que atrapalhavam seu trabalho
  • Ansiedade intensa
  • Noites sem conseguir dormir

Preocupado, procurou seu médico, que ficou alarmado. Os exames mostraram TSH suprimido e risco de arritmia cardíaca. Roberto precisou reduzir a dose imediatamente e fazer acompanhamento cardiológico.

“Foi a pior decisão que tomei”, ele admitiu depois. “Por querer emagrecer rápido, coloquei minha saúde em risco.”

Por Que o Ajuste de Dose Deve Ser Médico

A dosagem de levotiroxina é altamente individualizada. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. O médico considera:

  • Seu peso corporal
  • Idade
  • Gravidade do hipotireoidismo
  • Presença de outras doenças (especialmente cardíacas)
  • Outros medicamentos que você usa
  • Seus níveis hormonais nos exames de sangue

Além disso, mudanças na dose precisam ser graduais. Normalmente, ajustes são feitos de 12,5 a 25 mcg por vez, com reavaliação após 6 a 8 semanas.

Aumentar a dose por conta própria é como dirigir vendado: você não sabe para onde está indo e pode causar um acidente grave.

A Importância dos Exames Regulares

O monitoramento laboratorial é fundamental para garantir que você está tomando a dose correta.

Exames Principais

TSH (Hormônio Estimulante da Tireoide):

  • É o exame mais importante para acompanhamento
  • Indica se a dose está adequada
  • Deve estar na faixa de referência (geralmente entre 0,5 e 4,5 mUI/L)
  • TSH baixo demais = você está tomando hormônio em excesso
  • TSH alto demais = você está tomando hormônio de menos

T4 Livre:

  • Mede o hormônio tireoidiano ativo no sangue
  • Complementa a avaliação do TSH

T3 Livre:

  • Pode ser solicitado em casos específicos
  • Menos usado no acompanhamento de rotina

Frequência dos Exames

  • Início do tratamento: Exames a cada 6-8 semanas até estabilização
  • Após mudança de dose: Exames após 6-8 semanas
  • Tratamento estável: Exames a cada 6-12 meses
  • Situações especiais: Mais frequentes (gravidez, idosos, problemas cardíacos)

Situações Que Exigem Atenção Especial

Algumas circunstâncias podem afetar sua necessidade de levotiroxina:

Gravidez

Durante a gestação, as necessidades de hormônio tireoidiano aumentam em cerca de 30-50%. Por isso, gestantes com hipotireoidismo precisam de acompanhamento rigoroso e, geralmente, aumento da dose.

O hipotireoidismo não tratado na gravidez pode causar:

  • Aborto espontâneo
  • Parto prematuro
  • Pré-eclâmpsia
  • Problemas no desenvolvimento do bebê

Envelhecimento

Com o passar dos anos, o metabolismo desacelera. Idosos frequentemente precisam de doses menores de levotiroxina. O excesso de hormônio em pessoas mais velhas aumenta significativamente o risco de fibrilação atrial e osteoporose.

Outras Condições de Saúde

Certas doenças podem afetar a absorção ou o metabolismo da levotiroxina:

  • Doença celíaca
  • Doença inflamatória intestinal
  • Cirurgia bariátrica
  • Insuficiência renal
  • Problemas hepáticos

Interações Medicamentosas

Vários medicamentos podem interferir com a levotiroxina:

Reduzem a absorção:

  • Antiácidos com alumínio ou magnésio
  • Suplementos de cálcio e ferro
  • Multivitamínicos
  • Colestiramina
  • Sucralfato
  • Inibidores de bomba de prótons

Aumentam a necessidade de levotiroxina:

  • Estrogênios (anticoncepcionais, terapia de reposição hormonal)
  • Alguns anticonvulsivantes
  • Rifampicina

Sempre informe seu médico sobre todos os medicamentos e suplementos que você usa.

Dicas Práticas para o Uso Correto da Levotiroxina

Como Tomar Corretamente

  1. Horário fixo: Tome sempre no mesmo horário, preferencialmente pela manhã
  2. Jejum: Pelo menos 30-60 minutos antes do café da manhã
  3. Água: Tome apenas com água
  4. Consistência: Se você escolheu tomar à noite (algumas pessoas preferem), mantenha sempre à noite, 4 horas após a última refeição

O Que Fazer Se Esquecer Uma Dose

Se você esquecer de tomar pela manhã:

  • Lembrou algumas horas depois: Tome assim que lembrar, desde que seja pelo menos 4 horas antes da próxima refeição
  • Já passou do meio-dia: Espere e tome no dia seguinte no horário habitual
  • Nunca tome dose dupla para compensar

Armazenamento

  • Mantenha em temperatura ambiente
  • Proteja da luz e umidade
  • Não guarde no banheiro
  • Verifique sempre a data de validade

Viagens

  • Leve medicação extra (pelo menos uma semana a mais)
  • Mantenha na bagagem de mão
  • Se for viajar para fora do país, leve a receita médica

Sinais de Alerta: Quando Procurar o Médico Urgentemente

Procure atendimento médico imediatamente se você apresentar:

Sinais de superdosagem grave:

  • Dor no peito ou palpitações intensas
  • Falta de ar
  • Desmaios
  • Confusão mental
  • Tremores incontroláveis

Sinais de hipotireoidismo grave:

  • Confusão mental severa
  • Sonolência extrema
  • Inchaço generalizado
  • Temperatura corporal muito baixa
  • Dificuldade respiratória

Mitos e Verdades Sobre o Tratamento

Mito: “Posso parar de tomar quando me sentir melhor”

Verdade: O hipotireoidismo é uma condição crônica. Você se sente bem justamente porque está tomando a medicação. Parar pode trazer os sintomas de volta e causar complicações graves.

Mito: “Levotiroxina engorda”

Verdade: A levotiroxina não engorda. Na verdade, ela ajuda a normalizar o metabolismo. Se você está ganhando peso, pode ser que a dose esteja baixa ou haja outros fatores envolvidos.

Mito: “Todas as marcas são iguais”

Verdade: Embora o princípio ativo seja o mesmo, a absorção pode variar entre marcas. Se você estabilizou com uma marca, mantenha-a. Trocas devem ser acompanhadas pelo médico.

Mito: “Posso tomar levotiroxina para emagrecer”

Verdade: Usar levotiroxina sem necessidade médica é extremamente perigoso e pode causar sérios problemas cardíacos, ósseos e metabólicos. Nunca é uma opção segura para emagrecimento.

Mito: “Preciso tomar cálcio e ferro longe da levotiroxina apenas se forem suplementos”

Verdade: Alimentos ricos em cálcio e ferro também podem interferir. Tome a levotiroxina sempre em jejum para garantir absorção adequada.

A Importância do Acompanhamento Médico Contínuo

Seu endocrinologista é seu parceiro no tratamento. Mantenha consultas regulares e seja honesto sobre:

  • Como você está se sentindo
  • Sintomas novos ou persistentes
  • Mudanças na medicação (inclusive se você trocou de marca)
  • Outros medicamentos ou suplementos
  • Mudanças no estilo de vida
  • Planos de gravidez

Um bom relacionamento médico-paciente é fundamental para o sucesso do tratamento.

Hipotireoidismo Não É Sentença: Você Pode Viver Muito Bem

Com o tratamento adequado e o acompanhamento correto, pessoas com hipotireoidismo levam vidas completamente normais. A chave é:

✅ Tomar a medicação corretamente, todos os dias ✅ Fazer os exames de acompanhamento regularmente ✅ Nunca ajustar a dose sem orientação médica ✅ Manter seu médico informado sobre qualquer mudança ✅ Não trocar de marca sem comunicar ao endocrinologista

Considerações Finais

O tratamento do hipotireoidismo com levotiroxina é seguro e eficaz quando feito corretamente. A dose precisa ser exata – nem mais, nem menos – e isso só pode ser determinado através de exames laboratoriais e avaliação médica criteriosa.

As histórias de Ana e Roberto nos mostram os riscos reais de tomar doses inadequadas. Excesso de hormônio tireoidiano pode causar problemas cardíacos graves, osteoporose e sintomas debilitantes. Falta de hormônio mantém você com todos os sintomas desagradáveis do hipotireoidismo e pode causar complicações sérias.

Nunca ajuste sua medicação por conta própria. Nunca use levotiroxina para emagrecer se você não tem hipotireoidismo. E sempre comunique ao seu médico qualquer mudança de marca ou sintomas novos.

Seu corpo e sua saúde agradecem quando você faz as coisas do jeito certo. Afinal, não estamos falando apenas de um comprimidinho – estamos falando de um hormônio que afeta praticamente todas as células do seu corpo.

Cuide-se, confie no seu médico e siga o tratamento corretamente. Sua qualidade de vida depende disso!

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