Saúde mental na sociedade do desempenho: Entre o vazio existencial e o excesso de estímulo

Você já parou para perceber que, mesmo conectado 24 horas, mesmo ocupado do amanhecer ao anoitecer, existe uma espécie de vazio difícil de nomear? Uma sensação de que algo falta — não materialmente, não socialmente, mas em algum lugar mais fundo, mais silencioso?

Se isso ressoa em você, saiba que não está sozinho. E, mais importante: isso não é fraqueza. É o sintoma mais honesto da época em que vivemos.

Vivemos na chamada sociedade do desempenho, um mundo que recompensa a produtividade, glorifica o cansaço e trata o descanso como preguiça. Filósofos, psicólogos e pesquisadores têm se debruçado sobre os efeitos devastadores desse modelo na saúde mental humana. E o que eles descobriram muda a forma como olhamos para a nossa própria vida.

Vamos conversar sobre isso com profundidade e honestidade.

O Que É a Sociedade do Desempenho?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um dos pensadores mais relevantes da atualidade, cunhou o termo “sociedade do desempenho” em seu livro Sociedade do Cansaço (2010). Para Han, vivemos em uma época em que o principal inimigo não vem de fora — não é um chefe autoritário, não é uma norma imposta à força. O inimigo veio morar dentro de nós.

Nas sociedades anteriores, o controle era exercido pela proibição — o “você não pode”. Hoje, o controle é exercido pela exigência — o “você pode”, “você deve”, “você consegue se quiser”. Essa mudança é sutil, mas brutal. Porque agora, quando falhamos, não culpamos o sistema. Nos culpamos.

“O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo do que o sujeito de obediência. O poder, no entanto, não cancela o dever. O sujeito de desempenho continua disciplinado.” — Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço

Essa lógica criou uma geração de pessoas que trabalham compulsivamente, que se sentem culpadas ao descansar, que medem seu valor pelo que produzem — e não pelo que são.

O Excesso de Estímulo: Quando Tudo É Demais

Ao mesmo tempo em que se exige produção constante, vivemos bombardeados por estímulos. Notificações, redes sociais, séries infinitas, podcasts, newsletters, mensagens. O cérebro humano — que foi moldado por milhões de anos de evolução para responder a um ambiente relativamente calmo — é agora jogado em um turbilhão de informação sem pausas.

O neurocientista Daniel Levitin, no livro A Mente Organizada (2014), explica que o ato de alternar entre tarefas e estímulos constantemente (o chamado multitasking) não aumenta a produtividade — ele a destrói. Além disso, consome enormes quantidades de glicose cerebral, deixando a pessoa mentalmente exausta sem saber exatamente por quê.

O resultado? Um estado que ficou conhecido popularmente como burnout informacional — o esgotamento não pela quantidade de trabalho físico, mas pelo excesso de processamento mental e emocional.

E aqui entra um paradoxo cruel: quanto mais estimulados ficamos, menos conseguimos sentir. A atenção, sobrecarregada, começa a se apagar. E com ela, a capacidade de experimentar alegria genuína, presença, conexão.

Vazio Existencial: O Silêncio que Grita

Se o excesso de estímulo é um dos polos desse fenômeno, o outro polo é o vazio existencial — essa sensação de falta de sentido que cresce silenciosamente mesmo (ou especialmente) nas vidas mais “bem-sucedidas”.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e fundador da logoterapia, já descrevia esse fenômeno décadas antes de ele se tornar epidêmico. Em seu livro Em Busca de Sentido (1946), Frankl identificou o que chamou de “vácuo existencial” — uma sensação generalizada de vazio, tédio profundo e falta de propósito.

Para Frankl, o ser humano tem uma necessidade fundamental que vai além da sobrevivência e do prazer: a necessidade de sentido. Quando essa necessidade não é atendida, surge um sofrimento específico — não neurológico, não bioquímico, mas existencial.

“Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.” — Viktor Frankl, Em Busca de Sentido

O problema é que a sociedade do desempenho oferece uma resposta falsa para esse vazio: mais produção, mais conquistas, mais metas. Como se o próximo projeto, a próxima promoção, o próximo like fossem finalmente preencher aquele espaço.

Mas não preenchem. Nunca preenchem.

Nietzsche e o Niilismo Contemporâneo

Muito antes de Han ou Frankl, Friedrich Nietzsche já havia diagnosticado com precisão cirúrgica o colapso do sentido no mundo moderno. Sua ideia do niilismo — a perda de valores absolutos, de narrativas que orientam a vida — é surpreendentemente atual.

Nietzsche percebeu que, quando as antigas estruturas de sentido (a religião, os grandes ideais coletivos, as tradições) perdem sua força, o ser humano fica à deriva. Sem um “para quê” claro, qualquer ocupação serve — trabalho, consumo, entretenimento — para preencher o tempo e evitar o confronto com o vazio.

No entanto, Nietzsche não era pessimista. Ele propunha que, diante da ausência de sentido externo, o indivíduo precisava criar seu próprio sentido — através da vontade, da criatividade, do que ele chamou de “vontade de potência” (não de poder sobre os outros, mas de superação de si mesmo).

O problema é que a sociedade do desempenho sequestrou essa ideia e a deformou: transformou a “superação de si” em produtividade monetizável. O autoconhecimento virou personal branding. A jornada interior virou conteúdo para o Instagram.

Camus e a Revolta Necessária

Albert Camus, filósofo e escritor francês, foi outro que se debruçou sobre o absurdo da existência humana — nossa tendência de buscar sentido em um universo que não oferece respostas claras.

Em O Mito de Sísifo (1942), Camus descreve a condição humana através da imagem de Sísifo condenado a rolar uma pedra morro acima para sempre, só para vê-la descer repetidamente. Para Camus, isso é a metáfora perfeita da vida moderna: trabalho repetitivo, ciclos intermináveis, busca por algo que nunca chega.

Mas Camus surpreende com sua conclusão: “É preciso imaginar Sísifo feliz.”

Por quê? Porque a revolta consciente contra o absurdo — o ato de continuar mesmo sabendo da ausência de garantias — é em si uma forma de liberdade. Não uma liberdade ilusória, mas uma liberdade lúcida e honesta.

Aplicando isso à saúde mental contemporânea: não se trata de eliminar o sofrimento ou encontrar uma fórmula perfeita de felicidade. Trata-se de viver conscientemente, de recusar a anestesia coletiva e de construir, tijolo por tijolo, um senso próprio de propósito.

O Corpo que Paga a Conta

Toda essa pressão psíquica não fica circunscrita à mente. O corpo fala — às vezes grita.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente o burnout como fenômeno ocupacional em 2019, classificando-o na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). Os sintomas incluem:

  • Exaustão emocional profunda
  • Distanciamento afetivo do trabalho e das relações
  • Redução significativa da eficácia profissional
  • Sintomas físicos como insônia, dores musculares e queda de imunidade

Um estudo publicado no Journal of Occupational Health Psychology (2021) mostrou que profissionais com alto grau de autoexigência apresentam índices significativamente maiores de ansiedade generalizada, independentemente da carga objetiva de trabalho. Ou seja: não é quanto você trabalha — é a relação que você tem com o trabalho, com o erro, com o descanso.

Heidegger e o “Ser-no-Mundo”

O filósofo alemão Martin Heidegger oferece outra lente poderosa para compreender nossa crise contemporânea. Em Ser e Tempo (1927), ele discute o conceito de “ser-no-mundo” — a ideia de que a existência humana não é abstrata, mas sempre encarnada, sempre situada em um contexto de relações, tempo e espaço.

Heidegger alertava para o que chamou de “impessoalidade” — o estado em que vivemos segundo o que “se faz”, o que “se diz”, o que todos esperam, sem nunca questionar se isso é realmente nosso. Uma existência conduzida pelo “Das Man” — o “a gente”, o genérico, o coletivo que não tem rosto.

Em termos práticos: você está vivendo a sua vida, ou a vida que o algoritmo, o chefe, os pais, a cultura de desempenho projetaram para você?

Heidegger chamava de “existência autêntica” a capacidade de confrontar a própria morte — não de forma mórbida, mas como horizonte que nos lembra que o tempo é finito e que escolhas importam. O confronto com nossa finitude pode ser libertador: ele nos força a perguntar o que realmente importa.

A Atenção como Bem Mais Precioso

Em um mundo de excesso de estímulo, a atenção tornou-se o recurso mais disputado — e mais escasso.

A filósofa francesa Simone Weil escreveu de forma profunda sobre a atenção como prática espiritual e ética. Para ela, dar atenção genuína a algo ou alguém é um ato de amor — exige que você suspenda seus próprios pensamentos, julgamentos e urgências para realmente ver o que está diante de você.

Essa capacidade está sendo sistematicamente destruída. Não por acidente. Plataformas digitais são projetadas — com bilhões de dólares em pesquisa e engenharia — para sequestrar a atenção e mantê-la presa o maior tempo possível. O modelo de negócio é, literalmente, a monetização da sua incapacidade de se desconectar.

O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, em sua teoria do estado de fluxo (Flow, 1990), mostrou que os momentos de maior satisfação e significado na vida humana ocorrem quando estamos completamente imersos em uma atividade com foco total. Não em multitarefa. Não rolando o feed. Em atenção profunda.

Recuperar a atenção é, portanto, um ato político e existencial. É dizer não à lógica que te quer disperso e ansioso.

Caminhos Possíveis: Não Há Fórmula, Há Prática

Diante de tudo isso, o que fazer? É importante ser honesto: não existe solução simples. Qualquer guru que vende um método de 5 passos para curar o burnout ou encontrar o propósito está, provavelmente, reproduzindo a mesma lógica de desempenho que criou o problema.

O que existe são práticas, atitudes e escolhas que, cultivadas com consistência e honestidade, criam condições mais favoráveis para uma saúde mental real.

1. Desacelerar Intencionalmente

Não como técnica de produtividade (“descanso para render mais”). Mas como valor em si. O silêncio, o tédio, a lentidão têm valor existencial. São os momentos em que o barulho interno cessa o suficiente para que a voz mais íntima possa ser ouvida.

2. Questionar as Métricas de Valor

Quem definiu que seu valor é medido pela sua produção? Quem disse que uma vida boa é uma vida ocupada? Trazer essas perguntas à consciência é o primeiro passo para não ser governado por elas de forma automática.

3. Reconstruir o Sentido de Forma Ativa

Frankl e os existencialistas concordam: sentido não é encontrado, é construído. Isso exige reflexão honesta sobre valores, sobre o que você quer que sua vida represente — não para os outros, mas para você mesmo.

4. Cuidar das Relações Reais

Pesquisas como o Harvard Study of Adult Development — um dos estudos longitudinais mais longos da história, com mais de 80 anos de acompanhamento — mostram consistentemente que a qualidade das relações humanas é o fator mais fortemente associado à saúde mental e à longevidade. Não dinheiro. Não status. Conexão real.

5. Buscar Ajuda Profissional Sem Vergonha

Psicoterapia, psiquiatria e outros suportes de saúde mental não são luxo. São necessidade. Um período de crise pode ser o ponto de inflexão para uma vida mais consciente e mais verdadeira — mas isso geralmente exige acompanhamento profissional qualificado.

O Sofrimento Como Mensagem

Uma das viradas mais importantes no olhar sobre saúde mental é parar de tratar o sofrimento apenas como disfunção a ser eliminada e começar a ouvi-lo como mensagem.

A ansiedade diz: algo em minha vida está em desalinhamento. O burnout diz: estou vivendo para além dos meus limites reais. O vazio diz: estou buscando sentido nos lugares errados.

Isso não significa romantizar o sofrimento — há condições clínicas que exigem tratamento e não devem ser subestimadas. Mas significa que a saúde mental não é apenas ausência de sintomas. É a capacidade de viver com profundidade, com presença, com autenticidade — mesmo diante das contradições inevitáveis da existência.

Considerações Finais: Você Não É Uma Máquina

A sociedade do desempenho quer que você se comporte como uma máquina: eficiente, constante, sem pausas, sem dúvidas, sempre em atualização. Mas você não é uma máquina.

Você é um ser que sente, que questiona, que precisa de silêncio tanto quanto de movimento, de profundidade tanto quanto de velocidade, de conexão tanto quanto de solidão fértil.

Byung-Chul Han, Frankl, Nietzsche, Camus, Heidegger — filósofos separados por décadas e continentes — convergem em algo fundamental: a vida humana só faz sentido quando vivida conscientemente, com presença e com fidelidade ao que é essencialmente seu.

No meio do barulho ensurdecedor da era digital, talvez o ato mais radical e mais necessário seja este: parar. Respirar. Perguntar: o que realmente importa para mim?

E ter a coragem de viver a resposta.

Referências

  1. HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
  2. FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.
  3. NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  4. CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010.
  5. HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
  6. CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Flow: The Psychology of Optimal Experience. New York: Harper & Row, 1990.
  7. LEVITIN, Daniel J. A Mente Organizada: Como Pensar com Clareza na Era da Sobrecarga de Informação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
  8. WEIL, Simone. Waiting for God. New York: HarperCollins, 2001.
  9. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. Geneva: WHO, 2019. Disponível em: https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases
  10. WALDINGER, Robert J.; SCHULZ, Mark S. “What Do We Know About Health Over the Adult Life Course? New Findings From the Harvard Study of Adult Development.” American Psychologist, v. 65, n. 6, p. 503-513, 2010.
  11. SONNENTAG, S.; FRITZ, C. “The Recovery Experience Questionnaire: Development and Validation of a Measure for Assessing Recuperation and Unwinding From Work.” Journal of Occupational Health Psychology, v. 12, n. 3, p. 204-221, 2007.

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