SOMP: Tudo o que toda mulher precisa saber sobre a nova nomenclatura da SOP
Se você convive com a Síndrome dos Ovários Policísticos, ou conhece alguém que convive, talvez já tenha esbarrado em uma sigla nova circulando nas redes e em consultórios: SOMP. Não é erro de digitação nem modismo passageiro, é a atualização oficial do nome de uma condição que afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo.
Em maio de 2025, a revista científica The Lancet publicou o resultado de um consenso global reunindo 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes, além de mais de 14 mil respostas de mulheres em questionários ao redor do mundo. O resultado foi a troca de nome, de Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).
Mais do que uma simples mudança de sigla, essa atualização reflete décadas de avanço científico sobre o que essa condição realmente é. Neste guia, você vai entender por que o nome mudou, quais são as causas, como o diagnóstico é feito, os principais riscos à saúde e as opções de tratamento disponíveis hoje.
Por Que SOP Virou SOMP?
Por muitos anos, o nome “ovários policísticos” levou pacientes e até profissionais de saúde a associarem a condição apenas à presença de cistos nos ovários. Só que a ciência já sabia, há tempos, que isso é só uma parte pequena do quadro, e que muitas mulheres com a síndrome nem apresentam cistos visíveis no ultrassom.
A nova sigla reorganiza o entendimento da condição em três pilares:
- Ovariana: porque ainda existem impactos reais sobre ovulação, fertilidade e funcionamento dos ovários
- Metabólica: porque a síndrome está fortemente ligada a resistência à insulina, ganho de peso, alterações de colesterol e maior risco de diabetes tipo 2
- Poliendócrina: porque envolve múltiplos hormônios, não apenas os androgênios, afetando o funcionamento do organismo como um todo
Segundo especialistas envolvidos no consenso, a antiga nomenclatura causava confusão desnecessária, levando mulheres a acreditarem que ter um cisto ovariano, um achado ginecológico comum e muitas vezes irrelevante, significava automaticamente ter a síndrome.
Um ponto importante para tranquilizar quem já tem o diagnóstico: a mudança de nome não altera os critérios diagnósticos nem as recomendações de tratamento. Quem já foi diagnosticada com SOP continua com o mesmo quadro clínico, agora apenas com um nome mais preciso.
O Que Causa a SOMP?
A SOMP é uma condição multifatorial, ou seja, não tem uma única causa isolada, mas sim uma combinação de fatores que se somam:
- Fatores genéticos: mulheres com mães, irmãs ou outras parentes de primeiro grau com a síndrome têm maior probabilidade de desenvolvê-la, sugerindo forte componente hereditário
- Resistência à insulina: o corpo produz insulina em excesso para tentar compensar a resistência das células, e esse excesso estimula os ovários a produzirem mais andrógenos (hormônios masculinos)
- Hiperandrogenismo: o aumento dos andrógenos interfere no desenvolvimento normal dos folículos ovarianos e pode agravar a resistência à insulina, criando um ciclo que se retroalimenta
- Inflamação crônica de baixo grau: estudos apontam que mulheres com SOMP frequentemente apresentam marcadores inflamatórios elevados, o que contribui para as alterações metabólicas
- Fatores ambientais e de estilo de vida: ganho de peso, sedentarismo e dieta desequilibrada não causam a síndrome sozinhos, mas podem intensificar significativamente os sintomas em quem já tem predisposição
Vale reforçar, a resistência à insulina está presente mesmo em mulheres magras com SOMP, então o peso corporal não é pré-requisito para o diagnóstico nem exclui a presença da condição.
Como é Feito o Diagnóstico?
A mudança de nome não trouxe novos critérios diagnósticos. O diagnóstico de SOMP em mulheres adultas continua baseado nos Critérios de Rotterdam, estabelecidos em 2003 e ainda referência mundial. São necessários pelo menos dois dos três critérios abaixo, sempre depois de excluídas outras causas hormonais:
- Disfunção ovulatória: ciclos menstruais irregulares, espaçados ou ausentes, indicando oligo-ovulação ou anovulação
- Hiperandrogenismo clínico ou bioquímico: sinais como acne persistente, queda de cabelo em padrão masculino ou excesso de pelos (hirsutismo), ou exames de sangue com testosterona elevada
- Morfologia ovariana policística: identificada por ultrassom, ou AMH (hormônio antimülleriano) elevado em contextos específicos
Como são necessários apenas dois dos três critérios, existem diferentes combinações possíveis, chamadas de fenótipos:
- Fenótipo A (clássico): reúne os três critérios, disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e morfologia policística
- Fenótipo B: disfunção ovulatória e hiperandrogenismo, sem alteração na morfologia ovariana
- Fenótipo C: hiperandrogenismo e morfologia policística, com ciclos ovulatórios normais
- Fenótipo D: disfunção ovulatória e morfologia policística, sem sinais de hiperandrogenismo
Isso explica por que é perfeitamente possível ter a síndrome com exames hormonais normais, ou com ultrassom sem alterações visíveis. O diagnóstico é clínico e de exclusão, feito por um médico avaliando o conjunto do quadro, não um exame isolado.
Os Riscos da SOMP Além dos Sintomas Visíveis
Um dos maiores motivos para a condição ter sido reclassificada como “metabólica” é que seus riscos vão muito além de irregularidade menstrual ou acne. A SOMP está associada a:
- Resistência à insulina e diabetes tipo 2: o risco de desenvolver diabetes é significativamente maior em mulheres com a síndrome, mesmo nas que não têm sobrepeso
- Dislipidemia: alterações no colesterol, com tendência a HDL baixo e triglicerídeos elevados
- Doenças cardiovasculares: maior rigidez arterial e risco cardiovascular aumentado ao longo da vida
- Esteatose hepática (MASLD): acúmulo de gordura no fígado associado à disfunção metabólica, cada vez mais identificado em pacientes com SOMP
- Infertilidade: decorrente da disfunção ovulatória, embora isso não signifique impossibilidade de engravidar
- Impactos emocionais: ansiedade, alterações de humor e queda na autoestima são frequentemente relatadas, muitas vezes ligadas tanto aos sintomas físicos visíveis quanto às oscilações hormonais e à resistência à insulina
Por reunir esse conjunto de riscos, especialistas recomendam que mulheres com SOMP façam acompanhamento regular não apenas com ginecologista, mas também com endocrinologista, avaliando glicemia, perfil lipídico e saúde cardiovascular ao longo do tempo.
Como é Feito o Tratamento?
Não existe cura para a SOMP, mas existe excelente controle possível com tratamento individualizado. A escolha depende dos sintomas predominantes e dos objetivos de cada mulher, por exemplo, controlar o ciclo menstrual, tratar hiperandrogenismo ou buscar gravidez.
As principais frentes de tratamento incluem:
- Mudanças no estilo de vida: alimentação equilibrada, atividade física regular e sono de qualidade são a base do tratamento, especialmente por melhorarem diretamente a resistência à insulina
- Anticoncepcionais hormonais: frequentemente prescritos para regularizar o ciclo menstrual e reduzir sinais de hiperandrogenismo, como acne e hirsutismo
- Metformina: usada para melhorar a sensibilidade à insulina, especialmente em mulheres com resistência insulínica confirmada
- Indução de ovulação: medicamentos como o letrozol são utilizados quando o objetivo é engravidar, estimulando a ovulação de forma controlada
- Agonistas de GLP-1: incorporados mais recentemente ao arsenal terapêutico, especialmente úteis em mulheres com excesso de peso, já que a perda de peso impacta diretamente a resistência à insulina e o risco cardiometabólico
- Tratamentos dermatológicos e cosméticos: para controle de acne e hirsutismo, usados como complemento, não substituto, do tratamento hormonal e metabólico
O acompanhamento multidisciplinar, reunindo ginecologia, endocrinologia e, quando necessário, nutrição e saúde mental, costuma trazer os melhores resultados a longo prazo.
O Que Muda na Prática Para Quem Já Tem o Diagnóstico?
Se você já foi diagnosticada com SOP, pode ficar tranquila, nada muda imediatamente no seu tratamento. A transição para a nova nomenclatura será gradual, com previsão de incorporação completa em diretrizes internacionais até 2028. Os termos SOP e SOMP devem conviver por um bom tempo, até que o novo nome se torne padrão em consultórios, exames e bulas de medicamentos.
O que realmente importa é o que a mudança representa, um reconhecimento oficial de que essa síndrome não é “só sobre os ovários”. É uma condição que atravessa o sistema hormonal e metabólico inteiro, e que merece ser tratada com essa visão ampliada desde o primeiro atendimento.
Conclusão
A troca de SOP por SOMP não é apenas uma questão de nomenclatura médica, é um reflexo de como o entendimento científico sobre o corpo feminino evoluiu. Entender essa condição de forma mais completa, reconhecendo seus componentes hormonais, metabólicos e reprodutivos, ajuda as mulheres a cobrarem um acompanhamento médico mais completo e a entenderem melhor seus próprios sintomas, sem reduzir tudo a “só um probleminha nos ovários”.
Se você suspeita que tem a síndrome, ou já foi diagnosticada e sente que seu acompanhamento está incompleto, vale a pena buscar uma avaliação que olhe para o quadro metabólico como um todo, não apenas para o ciclo menstrual.
conhecimento liberta e protege.
Fontes acadêmicas
- Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet, maio de 2025.
- Critérios de Rotterdam. The Rotterdam ESHRE/ASRM Sponsored PCOS Consensus Workshop Group, 2004.
- Alterações metabólicas da SOMP: como influenciou a mudança de nome da síndrome. Portal Afya, 2025.
- Revendo os Dados: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (antiga SOP). Medscape, 2025/2026.
- Diagnóstico da SOP: Critérios de Roterdão e os 4 fenótipos. Dra. Karina Monteiro, Endocrinologia.














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